Irmãos no poder e a lógica das castas institucionais: o caso que expõe as engrenagens invisíveis do Estado em Rondônia

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Brasil 364

Irmãos no poder e a lógica das castas institucionais: o caso que expõe as engrenagens invisíveis do Estado em Rondônia

Brasil364 - Em um país onde o acesso ao poder ainda é profundamente influenciado por sobrenomes, redes de relacionamento e heranças simbólicas, Rondônia revela um caso que vai além da política tradicional e toca no coração das estruturas institucionais brasileiras. O que está em jogo não é apenas a presença de uma família em posições de destaque, mas a constatação de que determinados espaços de poder permanecem, na prática, restritos a poucos.

Se, em estados como o Ceará e o Acre, exemplos como os irmãos Ciro Gomes e Cid Gomes, ou Jorge Viana e Tião Viana, demonstram a força do voto como instrumento de perpetuação de grupos familiares no poder, em Rondônia o fenômeno assume contornos mais sofisticados e menos visíveis. Aqui, não se trata de disputa eleitoral, mas de ocupação estratégica dentro da engrenagem do Estado.

Os desembargadores Raduan Miguel Filho e Alexandre Miguel materializam essa dinâmica com precisão inquietante. Ambos alcançaram o topo do Judiciário estadual, presidiram o Tribunal de Justiça e, amparados pela linha de sucessão constitucional, assumiram, em momentos distintos, o comando do Poder Executivo. Não precisaram enfrentar urnas, nem submeter suas trajetórias ao crivo direto da população. Ainda assim, governaram. É a face mais silenciosa do poder, aquela que se legitima pela norma, mas raramente é questionada pela sociedade.

O que poderia ser tratado como mera coincidência familiar ganha outra dimensão quando observado sob a lente da estrutura social brasileira. A presença de dois irmãos que percorrem, com êxito, todas as etapas mais altas da carreira jurídica até alcançarem simultaneamente posições de comando revela algo mais profundo do que mérito individual. Revela a existência de circuitos fechados, onde capital educacional, relações institucionais e acesso a oportunidades se acumulam e se reproduzem. Chamar isso apenas de mérito é, no mínimo, simplificar uma engrenagem complexa.

A discussão, portanto, não é sobre legalidade, mas sobre equidade. O sistema permite, mas a realidade expõe que nem todos partem do mesmo ponto, nem percorrem o mesmo caminho. Quando o topo do Judiciário e, por consequência, do Executivo, passa a ser ocupado por membros de um mesmo núcleo familiar, o debate sobre uma possível sociedade de castas deixa de ser retórico e passa a ganhar contornos concretos.

Esse cenário se amplia quando se observa que a influência da família não se limita ao Judiciário. A atuação de Vinicius Miguel no campo político e acadêmico reforça a presença em múltiplas esferas de poder. Não se trata de um evento isolado, mas de uma rede que transita com fluidez entre instituições distintas, consolidando posições e ampliando sua capacidade de influência no Estado.

Comparado aos casos clássicos de ascensão pelo voto, o modelo rondoniense chama ainda mais atenção por evidenciar uma forma de poder que opera longe do debate público. No Ceará e no Acre, o eleitor tem a oportunidade de julgar, aprovar ou rejeitar. Em Rondônia, a dinâmica se dá dentro das estruturas, em um ambiente técnico, formalmente neutro, mas socialmente permeável a continuidades familiares.

O ponto central não é a exceção, mas o que ela revela. Casos como esse não apenas fogem à regra estatística, eles escancaram como o poder pode se organizar de maneira concentrada, mesmo dentro de instituições que, em tese, deveriam operar sob critérios estritamente impessoais.

No fim, a pergunta que permanece não é como esses irmãos chegaram ao topo, mas quantos, fora desses círculos, realmente têm a chance de chegar.

Fonte: Brasil364

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