
Por Juvenil Coelho
Apesar do tom metafórico do título, queremos nos referir pontualmente ao imbróglio da escala 6x1, atualmente em debate no Congresso Nacional e que promete render discussões acaloradas nas casas legislativas. Trata-se de um verdadeiro abacaxi a ser descascado pelos parlamentares até as próximas eleições.
Antes de tudo, é importante entender que a “onça só vai ao córrego quando está com muita sede”. Em outras palavras, esse projeto de lei permaneceu engavetado durante anos, incubado, como se diz popularmente, e somente agora foi colocado em pauta graças à forte insistência da esquerda e dos movimentos ligados aos trabalhadores.
Portanto, considerar a proposta como uma medida puramente eleitoreira é um equívoco, até porque ela pode beneficiar qualquer parlamentar ou grupo político que se engaje em sua defesa. O debate é livre e a pauta está aberta. Tanto é verdade que muitos oposicionistas já perceberam o alcance social da proposta e aderiram ao movimento, votando favoravelmente.
Se a proposta será efetivamente implementada ou promulgada, ainda é cedo para afirmar. No Senado, o embate tende a ser mais difícil, especialmente porque nem todos os senadores disputarão reeleição. O fato de a pauta estar sendo encabeçada pelo presidente Lula acaba servindo como combustível adicional para a polarização política. Ainda assim, nada impede que ela seja abraçada também por setores da direita ou do centro que enxerguem nela um avanço social. A ampla margem de votos obtida na Câmara já demonstrou a força da proposta.
Infelizmente, o que muitas vezes está em jogo é o egocentrismo da polarização política, que leva alguns grupos a contestarem tudo aquilo que vem do lado oposto. Não que a esquerda não tenha cometido erros ao longo de sua trajetória, mas, neste caso específico, merece reconhecimento pela defesa de uma causa social relevante.
Sendo mais enfáticos, é preciso dizer também que parte da direita está sendo obrigada a mostrar sua verdadeira face histórica em nosso país: elitista por natureza e sustentada pela exploração da força de trabalho dos mais pobres. Agora, muitos precisam explicar por que não votam a favor de uma pauta que beneficia justamente as classes mais penalizadas da sociedade.
Ao bem da verdade, colhemos aquilo que plantamos. Será interessante observar o que acontecerá politicamente com os parlamentares que votaram contra ou se abstiveram da votação. O mais curioso é que, entre eles, estão justamente alguns que demonstram desprezo pelos enfermos, pelos marginalizados e pelos trabalhadores mais humildes. Muitos, por força do cargo e das circunstâncias, são obrigados a cumprimentá-los publicamente, mas, intimamente, parecem rejeitá-los.
É lamentável, porque é exatamente entre essas classes desfavorecidas que estão mais de dois terços dos votos que esses políticos tanto necessitam para se manter no poder.
A lógica de muitos ainda parece ser a de que o pobre deve continuar pobre e o rico cada vez mais rico. No entanto, o mundo mudou. Vivemos uma transformação profunda nas relações humanas e sociais, com novas oportunidades para aqueles que desejam progredir e evoluir socialmente. As velhas cascatas politiqueiras já não produzem o mesmo efeito de antes.
Diante disso, não resta outra alternativa aos poderosos senão abrir as porteiras para os sedentos por pão, dignidade e justiça social.
O autor é editor do Instituto Phoenix de Pesquisa e analista político.



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